Resenha: FDP- Se não morrer ninguém não é notícia

Leonardo Santana é considerado uma revelação do quadrinho nacional dos últimos anos, tendo sido agraciado (merecidamente) com diversos prêmios pelo seu trabalho como roteirista. O cara tem talento, isso é inegável. Mas como qualquer profissional de talento, precisa moldar este dom natural pela experiência e pela velha fórmula do "cair e levantar de novo". F.D.P. - Se não morrer ninguém não é notícia é um belo exemplo do que estou tentando dizer. O personagem título - Fernando Drummond Pessoa, repórter endividado e canastrão - é quase um John Constantine abrasileirado, que demonstra claramente a dificuldade de Santana em se desvencilhar de suas primeiras influências no ramo das HQs. É difícil, para mim, resenhar uma publicação como essa, pois qualquer frase menos elaborada pode dar a entender que caio no velho estereótipo de achar que todo quadrinho nacional é cópia do quadrinho gringo. Não, não é o caso. F.D.P. é suficientemente brasileiro, e é filho legítimo de Leonardo Santana e do desenhista J. Henrique. Mas também tem como padrinhos ou tios distantes Garth Ennis, Warren Ellis e outros "bastardos modernos" das HQs.

 

 

 

Além de Fernando, desfilam pelas páginas o jagunço Severino, mais conhecido como Pitibiu, o Capitão Josué Ferreira (militar incompetente e que persegue o "herói"), o ingênuo fotógrafo Fabrício e a curvilínia e sempre preocupada Diana. Pra completar o quadro de clichês, Fernando tem sempre algo de ruim a dizer sobre todos os outros personagens em recordatórios que entopem os quadros da estória.

 

 

O ponto alto (sempre há um) está na arte de J. Henrique, com traços simples mas fortes o bastante para dar grande expressividade a todos os personagens. Somente a repórter Diana, de formas arredondadas e quase "mangalóides", destoa dos demais personagens, inclusive das (pouquíssimas, quase inexistentes) outras presenças femininas. As cores de Téo Pinheiro são eficientes na maior parte do tempo, mas inconsistentes. Em uma mesma página vão do chapado com sombras bem definidas à pirotecnia dos efeitos prontos de photoshop.

Em síntese, F.D.P. é um título com potencial, mas ainda mal-explorado. Anti-heróis malcriados e de barba por fazer enfrentando ameaças sobrenaturais temos aos montes pelas prateleiras das bancas e pelos canais de televisão. Nesse primeiro número, Fernando enfrenta um assaltante de banco com poderes telecinéticos e que, claro, acaba se julgando um deus. Nada na história sugere experiências anteriores de Fernando com o sobrenatural. Mesmo assim, o feladaputa dá um jeito de lidar com a situação sem derramar uma gota de suor (e pronto para finalizar o dia com uma boa bebedeira). Talvez fosse o caso de tirar todo o estranho e sobrenatural (o que não ocorrerá, visto que já foi anunciado, para a segundo edição, o encontro de Fernando com anjos e demônios em guerra) e focar mais no protagonista, suas relações e interações com os "tipinhos da noite", como o tal Cachorrão (seria ele um agiota? bicheiro? traficante?) e seu capanga Pitibiu, ou os colegas de redação. Como ele ficou devendo tanto dinheiro ao Cachorrão? Que outras confusões ele aprontou pra conquistar o desafeto do Capitão Ferreira? Fernando vai levar a colega Diana para debaixo de seus lençóis? Além da bebida, que outros vícios tem o personagem? Jogo? Drogas? Mulheres? São todos ganchos simples porém válidos, com muito pano pra manga.

Com ação ininterrupta em suas 28 páginas, a revista salta aos olhos pelo bom acabamento, a bela arte e uma qualidade gráfica geral que raramente se vê em publicações nacionais (especialmente as independentes). Mas peca, infelizmente, pela insistência na repetição de velhas fórmulas e pela pouca (ou quase nenhuma) inovação.

Nota do Autor: 
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