Sobre Hulk e as guerras inventadas
Muito há para se dizer sobre Hulk. Seu nome gutural, sua bestialidade e sua cor nos ajudam a entendê-lo como uma força da natureza. Como tal, ele é incontrolável, selvagem, imprevisível. Hulk é uma avalanche.
Não por acaso, a galeria de vilões do personagem é muito menor do a de outros astros dos quadrinhos. O principal vilão de Hulk é a civilização, assim como esta é inimiga de vulcões e terremotos. Hulk precisa ser dominado assim como o estouro de uma boiada. Hulk deve ser represado e uma estrada ou ponte deve ser construída sobre ele.
Ainda assim, Hulk é artificial, é inventado. Ele não estava aqui antes da civilização, ele é fruto dela. Hulk é um choque de retorno, nasce do atrito entre o natural e o desenvolvimento descontrolado. Se fosse eu Al Gore, diria que Hulk é o aquecimento global ou a inversão térmica. Talvez por isso em sua próxima reviravolta, o personagem que já foi verde e depois cinza, se tornará vermelho.
Se Hulk é a conseqüência furiosa de movimentos irracionais travestidos de ideologia ou ciência, então Hulk é a guerra. Também não por acaso, nos quadrinhos, ele já foi uma guerra mundial que só cessou com sua extradição para fora do planeta. Assim como Hulk é uma invenção, são as guerras. O que falar então de uma guerra que ocorre por conta do personagem? Esta seria a farsa completa, a invenção definitiva.
Assim é a guerra que tem sido noticiada entre o ator Edward Norton e a Marvel: pura invenção. Quando o assunto é a mídia, fica a dúvida se há falta de notícias, excesso de veículos ou as duas opções somadas (o mais provável, eu diria). Apenas um desequilíbrio desses poderia sustentar a necessidade da imprensa em geral de transformar em manchete o trivial. Não há dúvida de que exista um conflito entre a Marvel, o ator principal e o diretor do filme, Louis Leterrier (Responsável pela série Carga Explosiva). Porém, esse conflito é natural e previsível, não há por que carregar nas tintas.
A última tentativa de levar o gigante esmeralda para a tela foi um fracasso comercial. Como há uma série de similaridades entre o filme anterior e este que está para ser lançado, formou-se um campo de batalha. Os dois filmes demoraram a fechar seus roteiros. Inclusive Edward Norton foi chamado para reescrever algumas partes. Os dois filmes foram dirigidos por estrangeiros em seu primeiro convite para conduzir um blockbuster hollywoodiano. No filme de 2003, Ang Lee, que tinha nas costas o Tigre e o Dragão e a linguagem do cinema chinês que invadia o ocidente. Para o novo filme, um francês que, embora reze na cartilha do cinema de ação norte americano, tem uma forma bem européia de trabalhar as personagens.
Na visão da Marvel, os dois filmes são fruto de "visões estrangeiras", diferenciadas (ainda que que, possivelmente, Norton tenha mandado mais do que o próprio Leterrier). Assim como Ang Lee prometeu um Hulk zen, filosófico, um filme sobre fúria e liberdade, Norton promete uma edição dramática, densa, que mostra o peso que pequenas decisões ganham quando se tem o poder nas mãos. A Marvel, por sua vez, já fica contente com as explosões, os danos estruturais e bonequinhos a venda.
A Marvel nada mais faz do que o papel de dono da bola e investidor. Nessa peça, Norton e Leterrier são os criativos que lutam para levar ao mundo sua visão artística. Este é, possivelmente, o conflito mais chavão que há. Quantas histórias já não ouvimos sobre diferenças criativas? Algumas delas incluindo o próprio Edward Norton e sua edição particular de A Outra História Americana (American History X). Até mesmo as produções ditas independentes encontram conflitos de interesses, por que estes não ocorreriam quando se pesa visão artística e retorno financeiro?
Mas é claro, estamos falando de Hulk. Não pode haver paz quando seu nome é invocado. Hulk esmaga, Hulk destrói. Hulk acaba com a normalidade, sua presença já é um desvio. Que graça haveria num filme do Hulk que não mostrasse uma guerra dentro e fora das telas?


Hulk não é mau
O Hulk pode não ser um herói como os outros, mas com certeza não é o monstro sem alma que só destrói, pois ele defende as pessoas que ele ama. Se não fosse assim, não teria nem cabimento fazer uma série de TV com ele como herói, porque não funcionaria. O Hulk pode ser um herói sim, ao usar a sua força bruta para o lado do bem, tal como sempre fez.
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