Os 300 de Gotham
Como outros 300, ou mais, malucos de São Paulo, fui à ultima ação do ARG (Alternate Reality Game) para promover o filme Batman: Dark Knight . Para quem está caindo de pára-quedas, ARGs são jogos que lançam pistas em diferentes lugares, como seriados de TV, livros, sites e lugares do mundo real culminando em algum tipo de prêmio ou surpresa. Há alguns meses o ARG do Batman está correndo o mundo.
É de minha opinião que tudo que estamos acompanhando durante esse jogo é o que transcorre dentro do universo do filme antes dele começar, como um prelúdio live-action. Com o tempo veremos se estou correto. Curinga, Harvey Dent e Jim Gordon estão interagindo com o público através de telefonemas, e-mails e sites dando pistas para eventos reais. Ontem ocorreu o maior deles. No interesse de continuar a brincadeira, irei escrever dentro do personagem, com alguma licensa “poética”.
Meu envolvimento nisso começou quando fui recrutado por um amigo para buscar um pacote no Shopping Eldorado. Como meu emprego normal é por perto, fui lá seguindo as pistas do Curinga apenas para ser superado por um sujeito do Omelete. Tudo bem, ao menos eles decidiram partilhar toda a experiência e informações que recebem. Depois disso fui indicado pelo Curinga a entrar no site da ACME Security Systems e imputar um código.
E fui pego no pulo. Jim Gordon estava monitorando e me recrutou para ajudá-lo a derrubar o Curinga e policiais corruptos. Depois de um tempão sumido, fui instruído a ligar para um Hotel e interceptar pacotes indicados a policiais corruptos. Mais uma vez fui frustrado, dessa vez por problemas técnicos. Crente que estava de fora
da jogada e que eventualmente seria preso pela minha colaboração inicial com Curinga - foi então que uma oportunidade caiu do céu.
O mesmo amigo que me recrutara para a missão do Shopping Eldorado me recrutou para a missão de ontem, no vão livre do MASP.
Recrutei mais alguns colaboradores, encontrei com outros comparsas do palhaço lá e tinha dois oráculos passando e recebendo informações em seus terminais (um pré-requisito para a ação, já que os passos seriam publicados on-line).
A quantidade de presentes era surpreendente, realmente o Curinga tem bastante poder nas mãos, ou Gordon recrutou mais gente ainda. Saber de que lado estão é difícil, e é claro que ninguém tem coragem de perguntar.
Antes da contagem (disponível no site) terminar todos analisavam inutilmente um contâiner que nada tinha a ver com o evento. Achando que um papelzinho divulgando um tal “Dia sem música” era uma pista. Enquanto isso eu e meus comparsas analisávamos as informações vindas de Londres, que realizara um encontro semelhante de palhaços que já havia chegado ao fim. Sabendo que o destino final envolveria ingressos e um cinema, investigamos quais cinemas da Avenida Paulista poderiam hostear esse encontro. Duas opções surgiram: Cine Bombril, por ser o único que comporta 300 pessoas, ou o Bristol (no Center3) por ser o mais mainstream.
Dada a largada, paramos de pensar no cinema e a massa saiu correndo, sem parar para pensar em onde seria a tal Esplanada Lina Bo Bardi. Surpresa: Era ali mesmo onde todos estavam - isso que dá não conhecer a própria cidade ou não ler placas. Além disso, como as instruções eram em inglês a comunicação por telefone às vezes era complicada, com pedidos de soletragem de palavras obscuras como a tal “stilt“. Valeu uma ligação para um amigo que viveu tempos na Inglaterra, que não entendeu nada mas ajudou; “Stilt” significa estaca/pilar, ou seja, o prédio era o próprio MASP. A ordem era contar as janelas da fileira de baixo (a mesma quantidade da fileira de cima): 60, e anotar essa resposta para mais tarde.
O objetivo final era abrir um cofre virtual no site do Curinga, assim fomos atrás das pistas seguintes para conseguir os próximos números. E aí virou tudo do avesso. Primeiro a massa saiu correndo em direção ao Trianon, enquanto eu e meu grupo tentávamos pensar melhor sobre o que seria o correto. Com a correria, conversas confusas e empolgação, fomos parar na agência do Banco Real ao lado da Alameda das Flores. Enquanto lutávamos para desvendar as pistas, meu outro oráculo inteligentemente me mandou as instruções por SMS para que eu mesmo pudesse ler.
Assim comecei a acreditar que a massa estava certa de ir na direção do Trianon. O grupo decidiu separar-se e seguir diferentes palpites. As pistas envolviam fontes, palmeiras escadas e bandeiras, coisas que não faltam
na região da Paulista. Fomos parar na porta de um hotel, junto de outros que estavam seguindo as pistas, acreditando que as pessoas lá dentro eram atores envolvidos no esquema - deveríamos contar o número de pessoas “fazendo melhor para ficarem frias/cool“. Entramos, e fomos prontamente expulsos pelos seguranças, alarme falso. Aos nossos ouvidos chegou a informação que as tais pessoas eram 12 ou 13, não lembro como.
Em seguida uma ligação da outra metade do grupo: Eles estavam no que acreditavam ser o local do último passo, uma espécie de asilo em um prédio velho (old home for mutts and strays). E então: boom! Chega a ligação dizendo que a localização do destino final havia sido twittada: Center 3. Corremos desesperadamente, e no caminho centenas de outros agentes faziam o mesmo. Chegando lá conseguimos nossas cartas do Curinga e ingressos.
Ao entrarmos no cinema, um palhaço parecidíssimo com o Zidane nos recebeu. Assistimos a um intrigante filme curto, e Zidane voltou, entregando uma lata de filme a um dos agentes, com instruções para que ele a compartilhasse com outros palhaços de todas as maneiras possíveis, pois é uma pista para o que está por vir.
Ou seja, o jogo de gato e rato não acabou!
E, corta! Vemos repensar: na realidade devíamos ter ficado frios e seguido nossa dedução inicial, ficando de prontidão no Bombril e no Center 3, aguardando. Se isso tem mérito ou não, deixo para outros julgarem. Além disso, a tal casa da última pista (old home for mutts and strays) não deve ser o hospício, e sim um canil, ou abrigo para animais (”mutt” é um adjetivo só para cães, significando mestiço, de raça mista; “stray” significa perdido, andarilho - juntando os dois em português dá vira-lata). Deveríamos contar as pilastras do pára-peito dessa casa velha. E que casa velha da Paulista costuma ter adoção de vira-latas? Isso, O Casarão da Paulista. Eu burramente não quis ver o SMS da terceira pista antes de terminar a segunda; e também não sabia o significado de Mutt até agora, então não sei se teria feito diferença na hora.
Uma boa tática também seria ter divido o grupo de amigos em dois desde o começo, até mesmo em três. Para seguir a massa e simultâneamente decifrar as pistas por si próprio com calma, atacando em múltiplas frentes. Como nunca tinha participado de um ARG, ficam aqui as lições
Divertido foi, talvez nem tanto para os que estavam comigo pela quantidade de “pera aí”s e “cala a boca”s que eu devo ter dito. Além disso, as instruções em inglês confundiram muita gente, os trocadilhos e palavras obscuras funcionam bem para aqueles que falam a língua nativa ou fluentemente, mas para uma ação frenética com informações em tempo quase-real, fica complicado. E nessa era de tecnologia (que a ação usou) e ultra-comunicação, quase todos ali presentes chegaram ao cinema apenas por causa de uma twittada.
Apesar de ter ficado contente de ganhar algo depois do esforço, o gosto teria sido melhor ainda se tivesse de fato decifrado todas as pistas. Ainda estou pensando se o prêmio compensou o trabalho, apesar da oportunidade de ver o trailer mais cedo (que já caiu na rede) e das cartas serem bem legais (quem deu uma de Gerson conseguiu mais de uma); essas recompensas são efêmeras. Creio que no fim, o que conta é a experiência, se divertir no processo, passar tempo com os amigos e resolver quebra-cabeças. A cartinha na mão é só uma lembrancinha disso.
Para quem quer entrar na brincadeira, ainda dá tempo. Curinga, Dent e Gordon continuam na web. O Curinga tem um novo jogo que leva a outra página, que o Omelete especula terá o trailer que vimos ontem. Além disso, na home do site ele pergunta se estamos prontos para seguir suas ordens, indicando a um novo site: Rory’s Death Kiss.
Nele os palhaços recrutados são convidados a tirarem uma foto perto de um cartão postal de sua cidade; com promessas de que, se fizer isso por ele, o Curinga fará algo por você.
Fotos: André Peniche

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