Super-encontros que (ainda) não aconteceram
Os super-encontros, ou crossovers, são um artifício muito utilizado nas histórias em quadrinhos desde o surgimento dos primeiros super-heróis. Na prática, envolvem dois ou mais personagens que rompem as barreiras de um universo ficcional, ou meramente ultrapassam as páginas de um gibi para as de outro e se envolvem numa aventura conjunta onde se enfrentam ou tem de se unir para superar um desafio comum. No Brasil a estratégia é muito utilizada por autores independentes para aplicar um modelo de colaboração entre profissionais ou mesmo para trazer de volta um personagem há muito esquecido. Nesse contexto, confira abaixo alguns super-encontros dos quadrinhos brasileiros que deveriam ter acontecido mas que, por um motivo ou por outro, nunca se tornaram realidade.
Velta e Raio Negro
O encontro entre a detetive loura Velta, de Emir Ribeiro, e um dos mais famosos super-heróis brasileiros, o Raio Negro de Gedeone Malagola, já deu muito o que falar. O projeto é antigo e muita gente já passou por ele. Cinco anos atrás um roteiro a seis mãos (por Emir Ribeiro, Erick Lustosa e este que vos fala) começou a ser escrito e cogitou-se até uma participação do desenhista Mike Deodato, mas a idéia não andou. Mais recentemente a parceria foi oficializada, dessa vez com textos de Leonardo Santana, criador do FDP. Pouco tempo depois, no entanto, o super-encontro foi mais uma vez adiado, com a notícia de que Emir estava abandonando o projeto e iria refazer as páginas já desenhadas para eliminar a presença do Raio Negro.
Velta e Mirza
Outro projeto de longa data e que não tem previsão para acontecer. Dessa vez a razão para o cancelamento foi das mais trágicas: o falecimento do mestre Eugenio Colonnese, criador da vampira Mirza. Eugenio e Emir mantinham a idéia viva desde 2002 e Emir já tinha um roteiro preparado, o qual Colonnese se prontificou a desenhar caso os dois autores encontrassem uma editora interessada na publicação. No início do ano uma editora iniciou as negociações com o próprio Colonnese, mas um AVC o vitimou antes que pudesse desenhar uma única página.
Impávidos
Erick Lustosa, que editava o fanzine Martelo (somente com republicações de clássicos do terror nacional), tinha grandes planos quando iniciou o projeto Impávidos, ao lado do desenhista Marco Santiago. Na história, uma sociedade secreta infiltrada no governo desde a vinda da família real para o Brasil arquiteta a queda dos super-heróis brasileiros, percebendo não só que eles não servem mais aos seus interesses como também podem se tornar uma ameaça a seus planos nos anos por vir. Muitos heróis são caçados e mortos, outros se aposentam e somem da vida pública, temendo por suas vidas e pelas de suas famílias. Anos depois o Homem-Lua (outra criação de Gedeone) recruta e treina novos heróis para assumir o manto dos protetores do passado. Diversos personagens clássicos das HQs brasileiras ganham versões atualizadas, com destaque para o Metaleiro, a versão século XXI de Lustosa para o herói da jovem guarda Golden Guitar. Surgiram boatos de uma parceria com a Editora Opera Graphica para lançar a obra, mas até hoje somente uns poucos amigos de Lustosa (como eu) tiveram a chance de ler parte da saga.
Penitente e Zé do Caixão
O novo filme de José Mojica Marins, Encarnação do Demônio, trouxe de volta o coveiro Zé do Caixão, após quarenta anos longe das telonas. A produção, com ares hollywoodianos, foi sucesso de crítica e fracasso de bilheteria (ao menos no Brasil), mas serviu para reavivar a memória tupiniquim e lançar mais uma vez o personagem de Mojica na cultura popular. O lançamento do filme envolveu várias mídias, com especial atenção à internet e combinado com a volta do "vilão" também às HQs, dessa vez no traço do gaúcho Samuel Casal. A atenção gerada na mídia fez nascer no também gaúcho Lorde Lobo a idéia de propor a Mojica um encontro com seu personagem Penitente, um ex-assassino de aluguel que, renascido dos mortos, tem de salvar sete vidas para cada uma que ele tirou e assim obter a redenção. O projeto já encontra um obstáculo logo de cara, que é o ceticismo e o tom ateu da saga do Zé do Caixão. Para um personagem que nega veementemente a existência divina e busca a vida eterna por meio do filho perfeito (a única forma, segundo ele, de deixar um legado na Terra) é ainda mais difícil crer na existência da vida após a morte, mesmo quando sustentada pela visão de um zumbi mercenário. Superada essa dificuldade, claro, está no talento dos autores envolvidos criar situações que justifiquem o encontro sem que se desrespeite a mitologia de nenhum dos dois personagens. E falta, também, esperar a resposta de Mojica para a proposta.


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