Salvem os vilões!
Não, não é nenhuma ONG pedindo dinheiro para reabilitar o Doutor Destino, a Madame Mim, o Chapeleiro Louco ou o Capitão Feio.
É apenas a constatação óbvia que por trás de todo grande herói tem um grande vilão tentando derrubá-lo.

No recente Dark Knight, mais uma vez muitos saem do cinema falando que o Coringa roubou o filme. Injustiça com o Cruzado Encapuzado. O Coringa sempre rouba a cena por ser o melhor vilão das HQs. E ele é o melhor vilão das HQs por enfrentar o melhor herói das HQs. Explico.
O que torna um herói interessante não é apenas sua visão de mundo, habilidades e coragem. É como ele consegue vencer os desafios. Como ele evita a bomba, salva o ônibus escolar, quase morre (ou morre) para evitar a destruição da galáxia. E quem cria os desafios?
É aqui que o Coringa explica a que veio. Desde seu surgimento, o Palhaço do Crime inventa maneiras criativas e malucas de infernizar a vida dos moradores de Gotham, do Comissário Gordon e dos seus defensores. O fato do Morcegão sempre conseguir superar a louca genialidade do Coringa ajuda a construir sua fama e mito. Ajuda a construir sua força como personagem. Algo que não tem nada a ver com quantidade.
O Flash tem a Galeria dos Vilões. Mas são personagens tão longe do carisma e brilhantismo de um Duas-Caras ou Mulher-Gato que as aventuras do homem mais rápido do mundo em Central City, mesmo com algumas ótimas histórias, não chegam nem perto da tensão nas noites de lua cheia de Gotham. O mesmo vale para Metrópolis.
Uma das coisas que me incomoda no Superman é que ele é tão poderoso que seus vilões perdem o impacto como ameaça. Como tornar a história interessante? Como aumentar a tensão? O caminho mais simples é transformar o Clark num bobão que pode ser facilmente enganado. Algo que aparece toda semana no seriado Smallville (e infelizmente anda pintando nos gibis também). O mais difícil, e que exige o talento de gente como Grant Morrison ou Alan Moore, é deixar os vilões mais inteligentes. E com isso eles podem acabar roubando a história, como aconteceu com o Lex do Smallville. Antes que me acusem de não gostar do Azulão, saibam que hoje estou vestindo uma camiseta dele.
Um detalhe interessante dessa "injeção de carisma" no Lex é que acaba tornando ele muito parecido com o Batman, quase que uma versão negra do Bruce. Afinal, ele vai contra o Homem de Aço com nada mais do que seu intelecto, como fez o Batman no Dark Knight de Miller. É essa semelhança que aproxima Luthor e Wayne no, também, canônico O Reino do Amanhã. Mas para azar do careca mais arrogante dos HQs, nem ele pode com o Homem Morcego.
O único que realmente pode incomodar Batman é seu maior vilão, o Coringa. Como muito bem definiu Alfred no novo longa, e já comentei aqui no Nanquim, o perigo do Coringa está na sua insana imprevisibilidade. Ninguém sabe o que ele pode fazer. Afinal, o próprio Coringa não sabe o que quer. Além de jogar a m. no ventilador, é claro. Para enfrentar algo assim, um herói tem que ser realmente muito bom. Ou seria morto na primeira história. Devido ao talento do Coringa para o caos, temos do outro lado o melhor super-herói dos quadrinhos pronto para detê-lo. Se o Coringa fosse menos genial, menos ameaçador, menos louco, Batman perderia muito da sua graça – sem trocadilhos. Por isso, como fã dos heróis, sempre agradeço aos vilões.
Sabe, até que a idéia da ONG, agora, começa a parecer legal. Mas nada de reabilitação!
Diego Moreau avisa que também tem uma camiseta do Coringa, e pede desculpas pelo atraso da coluna, pois bateu o carro a caminho de assistir Batman - The Dark Knight pela segunda vez. Na terceira, ele vai de ônibus?

Enviar novo comentário