Gilmar Fraga na Zero Hora: uma aula de jornalismo em quadrinhos

Via Neorama dos Quadrinhos

A interatividade nos permitiu chegar a poder registrar uma bela contribuição do jornal gaúcho Zero Hora aos quadrinhos. Avisados por uma leitora de que dentro da extensa cobertura do jornal aos 20 anos do assassinato do deputado e radialista José Antônio Daudt havia uma série em quadrinhos (concluída na quinta-feira), desconfiamos que se tratasse de um trabalho do Gilmar Fraga - ilustrador, caricaturista e editor adjunto de arte do próprio jornal - , até por que a série em HQ não está disponível na página eletrônica do jornal.

Gilmar Fraga não só nos respondeu como nos cedeu uma e-entrevista sobre esse trabalho, e nos mandou páginas do mesmo (e de um outro, tão relevante quanto). Boa leitura!

Marko Ajdarić: Pode situar a relevância do caso Daudt na vida cutural, e nos falar dos outros esforços editoriais do jornal Zero Hora pelos 20 anos desse assassinato?

Gilmar Fraga: Bom, vamos lá: O caso Daudt que agora completa 20 anos e portanto acaba de prescrever, é talvez, senão o maior e o mais famoso e notório crime sem solução da história do estado do Rio Grande do Sul, principalmente pelo conjunto de elementos que o cercou. Um crime sem solução de um radialista e deputado em franca ascensão política, repleto de intrigas políticas, desavenças entre as várias correntes da investigação, um julgamento com todos os elementos teatrais de um 'filme de tribunal', amplamente coberto pelos veículos de comunição do Rio Grande do Sul, e acompanhado com avidez pela opinião pública gaúcha. Para situar quem nunca ouviu falar do deputado e radialista José Antônio Daudt, guardadas as proporções e regionalismos, era um mix de Bóris Casoy e um Datena. Daudt, era um jornalista carismático que desferia socos na mesa nos programas de TV e brilhava como deputado estreante, foi morto aos 48 anos por volta das 22:20 horas por dois disparos de uma espingarda de caça calibre 12, na gelada noite de 4 de junho de 1988, no bairro Moinhos de Vento, um dos mais chiques de Porto Alegre. O principal suspeito do crime: Antônio Carlos Dexheimer Pereira da Silva, colega da vítima na bancada do PMDB, vizinho de porta na Assembléia. Médico de Erechim, Dexheimer também estava em primeiro mandato. A suposta motivação: Daudt teria confidenciado a amigos, dois dias antes de morrer, que estava sendo seguido por Dexheimer. O motivo seria passional. Ele estaria com ciúme de Vera, de quem se separara havia três meses, imaginando que a ex-mulher se envolvera com Daudt. Mas o grande mistério reside no fato de Daudt ser homossexual.

Dexheimer passou a ser investigado porque um flanelinha de carros, de 11 anos na época, que conversara com o homicida na frente do prédio de Daudt, ajudou a montar um retrato falado. Ao ver uma foto publicada em Zero Hora, o menino apontou Dexheimer como sendo o homem do Monza. Por sua vez, 48 horas depois, o deputado Dexheimer armou uma barafunda na Polícia Civil ao indicar outro suspeito. O então governador pedro Simon, publicamente, cobrava rapidez, mas, nos bastidores, queria uma investigação mais profunda.

Em agosto de 1990, Dexheimer sentou-se no banco dos réus no TJ. Por ser deputado, foi julgado por 21 desembargadores. Durante três dias, o estado parou para acompanhar os debates, transmitidos ao vivo por rádio e TV. Por 14 votos a sete, foi inocentado por falta de provas. Um dos sete votos pela absolvição era do desembargador Tupinambá Nascimento, que fez a premonição.

O assassino está incógnito. E José Antônio Daudt jaz no cemitério da Santa Casa, num túmulo emprestado pela família de Dario Lopes de Almeida, sem o epitáfio 'descanse em paz'.

Zero Hora ouviu 40 personagens ligados ao caso, e envolveu um grande número profissionais (da sua versão impressa e on-line), entre editores, jornalistas, fotógrafos diagramadores e artistas gráficos. Coube a mim, além de fazer um lay-out inicial da programação visual da reportagem impressa, elaborar com base nos depoimentos e evidências, contar através da linguagem seqüencial, as várias etapas caso Daudt. Do dia da morte à absolvição do deputado Dexheimer. O plano de edição foi fechado em uma página diária em forma de quadrinhos do caso ao longo de quatro dias.

MA: Que outros trabalhos desse tipo você já fez para a Zero Hora?

GF: Bom trabalhei junto com o roteirista Carlos André Moreira em uma adaptação em 32 capítulos para os quadrinhos da obra 'O Continente', de Erico Veríssimo para o caderno de Cultura do jornal Zero Hora em comemoração aos 100 anos do autor, em 2005. Era uma trabalheira danada, eu fazia uma página por semana toda pintada em aquarela. E envolveu muita pesquisa de indumentárias e o modo de vida dos gaúchos neste período de formação do estado gaúcho.

MA: Como é realizar quadrinhos-verdade para um jornal de ampla circulação estadual?

GF: Não acho que sejam quadrinhos-verdade, mas uma interpretação que permite uma leitura que parte do real, e usa elementos (sequenciais) da linguagem dos quadrinhos para relatar um determinado acontecimento. O desafio neste caso é organizar a informação de uma forma clara, atrativa e mais objetiva possível, que possa ser entendida tanto pelo leitor habituado a linguagem dos quadrinhos, quanto o leitor acostumados somente a 'massa' do texto jornalístico. O resultado de trabalhos como esse do Daudt foi justamente levar ao leitor de maneira não só visualmente interessante mas com uma narrativa bem elaborada acontecimentos que marcaram nossa história e até hoje fazem parte do imaginário do gaúcho.
Zero Hora tem uma circulação média diária de 177.076 exemplares e a repercussão da história publicada agora no jornal pode ser avaliada pelo retorno positivo dos leitores que não só gostaram do material como indicaram outros assuntos para serem produzidos em forma de quadrinhos.

MA: Que outros artistas do traço estão colaborando na Zero Hora, atualmente:

GF: Bom, somos ao todo 12 entre infografistas e ilustradores na versão impressa da qual faço parte. Diretamente ligados à ilustração somos: eu, Eduardo Oliveira, Gabriel Renner, Eduardo Uchôa e Fernando Gonda. Nas charges, temos Iotti, Ronaldo Cunha Dias e Marco Aurelio.

MA: pode comentar o falecimento do Nelson Jungbluth, que passou quase despercebdido, mesmo no Rio Grande do Sul?

GF: Olha, o seu Nelson, para mim era o maior pintor ilustrador e gráfico de sua geração. Eu o conheci em uma expo lá por 2002 e ele foi absolutamente gentil e me deu alguns toques sobre técnicas e pigmentos...matéria do quel para mim ele era um mestre!
Conheci o seu Nelson em minha exposição no Museu do Trabalho aqui em POA. E vivia encontrando ele na fila do banco onde batíamos altos papos!

MA: Que outras surpresas nos prepara Gilmar Fraga?

GF: Acabei de ilustrar para LP&M Editores os clássicos, Don Quixote, Romeu e Julieta e Robinson Crusoé... Mas ainda não vi os rebentos impressos. Também preparo mais um livro em parceria com o escritor Duda Teixeira, com quem já publiquei 'O Calcanhar do Aquiles'.

Na sequência, 4 páginas do trabalho sobre o caso Daudt, e 3 páginas do especial pelo centenário do escritor Erico Veríssimo (clique nas imagens para ver em tamanho maior).

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