Entrevista: Ulisses Azerêdo
Há quase dois anos o baiano Ulisses Azerêdo criava o site Nostalgia do Terror. Colecionador de quadrinhos e fanático pelo gênero das histórias de terror, Ulisses fez do Nostalgia uma verdadeira vitrine de títulos, editores e artistas que marcaram o cenário brasileiro das HQs.
Numa conversa informal, Ulisses falou ao Nanquim sobre suas motivações, influências e um pouco de suas impressões sobre as histórias em quadrinhos nacionais de ontem e hoje.
Nanquim: Começando pelo site, então. Por que fazer um site logo sobre quadrinhos de terror?
Ulisses Azerêdo: Porque havia uma carência muito grande desse material para pesquisa, de forma doculmental e também na internet. Falava-se mais de super-heróis e outros, mas o gênero mais importante, a meu ver, no nosso país, foi o terror, uma vez que revelou centenas de artistas e marcou o nosso quadrinho nacional. E veja que há poucos livros sobre quadrinhos do gênero. O Gonçalo Júnior é um dos poucos que anda se interessando por pesquisar o assunto.
Nanquim: A motivação de construir o site então tem mais a ver com preservação da memória que com paixão pelo gênero?
Ulisses: A paixão pelo gênero foi fundamental, mas dispor este material para documentação foi a motivação essencial. Nossos editores e artistas merecem essa consideração.
Nanquim: Você comentou que considera o gênero o mais importante do nosso país. Isso se limita às HQs ou você acha que o terror brasileiro marcou presença em outros meios, como o cinema e a literatura?
Ulisses: Relmente me refiro aos quadrinhos de Terror. Conheço pouco a literatura de terror em nosso país, mas me recordo muito dos poemas mórbidos de Augusto dos Anjos. No mais, li livros do gênero, de literatos Russos e norte-americanos. Quanto ao cinema, sem dúvida nenhuma, o José Mojica, o Zé do Caixão, marcou o gênero no cinema, sendo o precursor e influenciando as HQs em nosso país.
Nanquim: Voltando aos quadrinhos, na sua opinião o que os quadrinhos de terror brasileiros têm que os de outros países não têm?
Ulisses: Acho que o nosso rico folclore influenciou em muito as HQs. O artista brasileiro não só se prendeu a modismos... até as nossas religões e crenças fizeram partes de muitas delas. Quem nunca viu HQs que continham um Lobisomem, um saci, macumba, mãe d'agua e até jagunços em vários traços? Nossos causos também tornaram-se várias Hqs. O Edmundo Rodrigues revolucionou a nossa HQ no final dos anos 50, pois muito da nossa tradição oral foi quadrinizada e de forma muito criativa por ele.
Nanquim: Você acha que essa "brasilidade" foi herdada pela nova geração de quadrinistas brasileiros? Qual sua opinião sobre HQs como Penitente, de Lorde Lobo e Depois da Meia-Noite, do Laudo?
Ulisses: Acho que a nova geração, salvo aguns, não deu a mínima para essas influências... a maioria dos jovens artistas se alienaram pelo tais de super-heróis. O primeiro desenho sempre é de um herói, que se deve em parte da falta de preservação da nossa memoria também. Se os jovens tivessem acesso ao material artístico de Jayme Cortez, Edmundo Rodrigues, Watson Portela e Mozart, que são mais novos... acho que seria um pouco diferente. O Nostalgia deu um passo importante, modestamente falando, mas seria bom ter mais veículos recordando e mostrando a riqueza artística que está sendo esquecida. Será que algum jovem artista ouviu falar ou viu a arte de ETC Coelho, Messias de Melo, Nico Rosso, Ignácio Justo, Manoel Ferreira e outros? Lógico que devemos viver o presente, mas há um legado primoroso lá atrás... devemos conhecê-lo. Quanto aos mais novos, gosto muito dos desenhos do Laudo, mas não tenho adquirido o material dele.
Nanquim: Finalizando, então... Já que estamos falando de passado e presente, vamos dar um outro passo. O que você imagina do futuro da HQ de terror nacional? Qual a importância da internet e de sites como o Nostalgia para os futuros artistas e personagens do gênero?
Ulisses: Eu acho, agora, que a Internet é fundamental. Cada vez mais rememorando artistas e a sua importância, observo que são publicadas mais matérias sobre desenhistas, editores e editoras que começaram esse processo. Isso é bom. Acho que os quadrinhos de terror estão reagindo e vão reagir mais. Sobre a importância do Nostalgia seria bom outra pessoa comentar, mas o objetivo é realmente resgatar tanta coisa de qualidade que não é valorizada como se deveria... e como se faz com tudo aqui no Brasil.

site Nostalgia do Terror
Parabéns pela entrevista! Parabéns ao Ulisses!!!!
Salve os Quadrinhos e todos os seus gêneros!
Boa entrevista
Gostei da entrevista Felype. País sem memória é assim: um por todos, todos por nenhum.
Eduardo Fonseca
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