Entrevista: JAL, diretor da ACB
No dia 23 de julho acontece no SESC Pompéia a entrega do 20º Troféu HQMix, tradicional prêmio dos quadrinhos brasileiros, realizado pela Associação de Cartunistas do Brasil em parceria com o Instituto Memorial das Artes Gráficas (IMAG). A lista dos indicados nas 46 categorias do prêmio foi divulgada há pouco mais de uma semana.
O Nanquim conversou com José Alberto Lovetro, o JAL, co-fundador da ACB e do Troféu (ao lado de Gualberto Costa), que nos falou um pouco das origens do prêmio, sua situação presente e dos planos futuros, entre outras coisas.
Nanquim: Fale um pouco do HQMix. Como surgiu, qual a proposta, o que motivou sua criação...
Jal: O HQMIX surgiu dentro do programa TV MIX da TV Gazeta em 1988. Eu e o Gualberto entrávamos ao vivo para falar sobre lançamentos e temas de quadrinhos, duas vezes por semana. Nos apresentávamos no horário da Astrid Fontenelle, de manhã e no horário do Serginho Groisman à noite. Foram dois anos. Já havíamos criado o Angelo Agostini na AQC-SP que acontece até hoje pelas mãos do Worney de Sousa. No entanto achávamos que deveria haver um prêmio que visionasse todo o mercado no Brasil. A idéia era impulsionar o mercado com um evento que demonstrasse o trabalho dos profissionais da área dos quadrinhos, animação e humor gráfico. Temos que aprender com os americanos que sabem fazer isso muito bem. Um OSCAR consegue movimentar toda a mídia e manter um público que ainda vai aos cinemas apesar de TV paga, dvd, telas panorâmicas, etc.
Nanquim: Como ocorre o processo de seleção dos indicados para o prêmio, e quais os critérios observados?
Jal: Não há inscrição. O levantamento de todos os lançamentos são feitos pela Comissão de Organização através de noticiários e de contatos em todo o Brasil. Dificilmente escapa algo. As revistas independentes e fanzines já sabem do evento e nos procuram. São 20 edições e o troféu vem se firmando à cada ano.
O processo de indicação feito pela Comissão tem critérios de qualidade após pesquisa dos lançamentos. É importante dizer que apesar das indicações, todos estão concorrendo. Quem não concorda com as indicações da Comissão pode votar em quem achar melhor na coluna "outros" da cédula. Para o próximo ano teremos novidades nessa área das indicações. Só não digo agora pois teremos muitas reuniões nesse segundo semestre para preparar o HQMIX da maioridade (21). Há um processo de depuração que encerra uma fase no ´21° HQMIX.
Nanquim: Além de profissionais e obras nacionais, o HQMix premia também os quadrinhos estrangeiros, certo? Qual o motivo disso? Não seria mais interessante, para o cenário brasileiro, manter a premiação exclusiva ao material produzido aqui?
Jal: Bem, nós criamos o Angelo Agostini na AQC-SP justamente para visionar apenas o mercado brasileiro. Foi criado inclusive para comemorar o Dia do Quadrinho Nacional (30 de janeiro) pela publicação das Aventuras de Nhô Quim em 1869. Conseguimos, na época, fazer a data entrar no calendário oficial do país. Foi um trabalho em conjunto, assim como a nossa participação na Campanha das Diretas com aquele boneco do Teotônio Vilela que nos ajudou a brigar contra uma lei que estava no Congresso que dizia que quadrinho barsileiro era o Disney, o Fantasma, o Zorro desenhados no Brasil. O HQMIX não veio para competir com o Angelo Agostini mas para ampliar a visualização do trabalho do desenhista, editor, colorista que publicam em nosso Brasil.
Temos duas vertentes para um prêmio- uma de se voltar e interessar mais aos próprios profissionais da área; outra voltada para mostrar esse trabalho com maior amplitude para o público em geral. Um leitor que gosta de Homem Aranha pode gostar também de um Fábio Moon e Gabriel Bá. Vivemos os anos 80 e 90 choramingando que os estrangeiros tomavam nosso lugar pelos preços baixos que chegavam às editoras brasileiras. Cansamos de sermos os perdedores chorões. O mercado vive de toda publicação que faz alguém ainda ler quadrinhos ao invés de ir pro videogame ou outras atrações gratuítas na internet. A prova de que podemos ter mais brasileiros ganhando espaço de trabalho é o próprio Mauricio de Sousa. Ele simplismente venceu um norteamericano que dominava por aqui: Walt Disney.
Mas o Mauricio é um quadrinho mais comercial? Babaquice? Ele acaba de voltar da China onde estará atingindo 180 milhões de crianças pela internet com sua Turma da Mônica falando do Brasil e até de nosso Aleijadinho. Não é pouco.
Acho que valorizar o artista brasileiro é incorporá-lo ao mercado mundial pois hoje temos internet e um novo mundo a conquistar. Além disso há muito material publicado fora do Brasil que é produzido por uma legião de artistas brasileiros.
Num ano em que perdemos as revistas do Ziraldo, do Monteiro Lobato e até o Cocoricó é preciso alguém ainda sustentar que brasileiro dá certo se tiver um investimento da editora.
Nanquim: Algumas pessoas acusam o HQMix de valorizar pouco os profissionais do passado (ao contrário do Prêmio Angelo Agostini, com sua categoria "Mestres do Quadrinho Nacional"). O que você tem a dizer sobre isso?
Jal: Nós temos, desde o início o troféu Mestre Homenageado. A diferença é que procuramos homenageá-lo ainda em vida que é sempre mais emocionante. Uma boa homenagem além do prêmio é fazer exposições como fizemos no ano passado mostrando ao público do SESC Pompéia mestres como Jayme Cortez, Benício, Ziraldo, André Le Blanc, Conceição Cahú, entre outros.
Aliás agora estamos lembrando os nossos artistas que faleceram no ano, já que a mídia costuma não dar muita importância.
Agora, a grande homenagem aos veteranos é a própria estatueta do Troféu. A cada ano gastamos quase toda verba que temos para criar uma escultura de um personagem. O que é melhor? Ganhar um troféu pelos serviços prestados ou ser o próprio troféu? O Canini, por exemplo com seu Kactus Kid sentiu-se mais homenageado do que em qualquer outro prêmio. Lembramos dele, sua importância e de seu personagem ao mesmo tempo. Esse ano estamos resgatando o trabalho do Claudio Seto e seus personagens Samurais bem nos 100 anos da Imigrãção Japonesa ao Brasil. Ele terá seu personagem em todas estantes dos maiores desenhistas do país. Isso chamou a atenção da Devir que vai publicar um álbum especial republicando seus mangás do Samurai. Homenagear não é só dar um troféu mas lutar para que nossos valores não sejam esquecidos.
Nanquim: No ano passado, ao não ser indicado, o editor do Neorama dos Quadrinhos, Marko Ajdaric, disse que não iria mais divulgar notas referentes ao HQMix. A não-indicação do Neorama, novamente este ano, tem algo a ver com essa declaração?
Jal: Antes é preciso dizer que o Marko Ajdaric faz um trabalho necessário para a área e por isso é reconhecido. Também é preciso dizer que ele continua concorrendo ao HQMIX- só não foi um dos indicados pela Comissão.
Todos podem reclamar por não serem indicados pois é o direito de quem se achar injustiçado, mas ao não querer noticiar o HQMIX como uma espécie de represália é uma atitude intempestiva e não jornalística. Depõe contra quem quer ser lembrado justamente por ser um divulgador da àrea. É uma punição aos próprios leitores dele que terão que procurar outras fontes para ficarem informados. Falei com o Marko e ele sabe que sempre o apoiei em seu início. O Neorama virou site agora pois era uma newsletter. O Marko não concorreu com sua newsletter mas concorreu como jornalista.
Hoje o HQMIX é provido pela ACB-Associação dos Cartunistas do Brasil e o IMAG- Instituto Memorial das Artes Gráficas do Brasil. Não é apenas JAL e Gual como era no início. Tem um regulamento. Tem uma Comissão criada pelas duas associações. Tem presidentes diferentes a cada dois anos. É da classe dos desenhistas e deve ser visto por todos como algo necessário. Vai muito além de indicações e ganhar um troféu.
Nanquim: Ainda sobre o Neorama: o site de Ajdaric traz sempre uma listagem, na home, das mesmas notícias distribuídas pela newsletter. Além disso, há um blog destinado unicamente à divulgação de releases, e sabe-se que boa parte dos sites sobre quadrinhos do Brasil utilizam-se do Neorama para definir pautas. Nada disso o torna elegível para a categoria "site sobre quadrinhos"?
Jal: Quem não concordar com as indicações da Comissão pode democraticamente votar no que achar melhor. A cédula é aberta. Que os 1.200 votantes decidam sobre isso.
Nanquim: Vimos que houve um aumento das categorias esse ano. Agora são cinco categorias voltadas para a internet (web quadrinhos, site sobre quadrinhos, blog sobre quadrinhos, blog/flog de artista gráfico e site de autor). Fale um pouco sobre cada uma delas e dos motivos dessa expansão.
Jal: O HQMIX não fica parado no tempo. Tanto ítens podem ser eliminados como podem ser adaptados conforme a evolução do mercado. Evidente que a internet é o fator novo no século 21. Tem que ser valorizada e vista de forma mais atenta pois está lançando muita gente boa que não teria como imprimir revista própria.
Da mesma forma o mercado de fanzines está tão quente que não dá mais para usar a palavra fanzine e sim revista independente. Esse ano tem até revista independente de bolso por ter havido diversos lançamentos desse tipo. Mas foram só quatro ítens além do ano passado. Ano que vem alguns podem sair e outros entrarem.
Nanquim: O que é um "articulista dos quadrinhos"? O que um profissional deve fazer para se destacar e ser indicado nessa categoria?
Jal: O Troféu melhor jornalista do ano foi substituído no título por articulista para que quem não seja jornalista e é divulgador possa também participar. Para o próximo ano estamos pensando em haver inscrição, mesmo porque ninguém consegue ler todos jornais, sites e blogs do país para descobrir quem está publicando.
Nanquim: Os critérios de indicação do HQMix já foram questionados antes? Qual a postura dos organizadores em relação a esses questionamentos?
Jal: Não existe nada nesse mundo que não seja questionável e isso é bom pois alguém já disse que "a unanimidade é burra". O que se deve ter é um bom senso para que não se chegue à radicalização. Claro que ainda temos falhas no HQMIX mas são bem menores que as de 10 anos atrás onde aprendíamos com a prática. É o único troféu da área com uma auditoria. O que posso dizer é que vai melhorar mais ainda nos próximos anos.
Dia 23 de julho no SESC Pompéia, novamente estará nosso padrinho Serginho Groisman e sua banda para ser mais uma festa de confraternização da classe. Tenho orgulho de saber que um Gonçalo Jr. veio da Bahia para receber seu troféu de pesquisa e hoje é um dos jornalistas mais produtivos com diversos livros publicados. Ver um Klévissom chegar para receber seu troféu por livro independente sobre o Cangaço e no próprio evento ser contatado por uma editora para publicar seu livro nacionalmente. Ver como o número de teses e TCC vem crescendo e que o HQMIX virou uma banca nacional para os universitários e pesquisadores demonstra o quanto a linguagem ainda está viva. Ver desenhistas virem de todo o país para o evento pagando suas passagens e estadias só para encontrarem amigos que não encontram faz tempo. Isso é o que devemos fortalecer no HQMIX, para que não seja apenas uma entrega de troféus. Um evento para encontrar amigos de batalha é o que faz a festa.
Estão todos convidados.

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